Assine o Feed desse BlogUm fascinante paralelo entre duas das maiores estrelas da música brasileira, traçado primorosamente sob a análise de suas carreiras, entrelaçadas e antagônicas, representantes incontestes da cultura nacional. Leia mais
Cintilam no céu do Brasil, há quase 60 anos, duas estrelas gêmeas que brilham de costas uma para outra, mas de beleza e entedimento complementares: explode Cauby Peixoto tudo aquilo que João Gilberto sussura, e ao longo destas quase seis décadas, foram dizendo a mesma coisa, numa relação de reciprocidade e desnudando todo o sentimento brasileiro.
São gêmeos de nascimentos distintos, Cauby a 10 de fevereiro, João de 10 de junho de 1931, são quatro meses de diferença, são quatro os anos que separam suas estréias nos palcos nacionais. Cauby estreia em 1946 como “crooner” da Rádio Tupi, enquanto João conseguia certo destaque no grupo Garotos da Lua, expulso depois por indisciplina. As coincidências não param por aí, em 1959 João lança o álbum Chega de Saudade, com muito destaque inicial para Rosa Morena de Dorival Caymmi, oitava faixa. A classe média não gostou daquela batida diferente, do samba compassado, disseram que era coisa de americano; o disco levou alguns anos para ser reconhecido pela maioria. Em 1959 Cauby lança nos EUA, com muito sucesso de crítica e público, o álbum Maracangalha, que recebeu o título de I Go, o mesmo Brasil que se desconheceu em Rosa Morena no compasso de Bossa Nova e decretou americanização, se identificou ferrenhamente com a mesma Rosa Morena cantada em Inglês e Cauby foi recebido com honras de defensor da cultura nacional quando retornou ao Brasil para lançar o primeiro rock cantado em português: Rock´n´roll em Copacabana.
O Brasil se achou por ali. Depois que as revistas Time e Life deram-lhe o nome de Elvis Presley brasileiro, Ron Coby, como era conhecido nos EUA, virou símbolo nacional; montou a boate Drink no Rio de Janeiro, a qual virou referência entre uma classe média abastada e branca que gostava de fazer música, eram os meninos da Bossa Nova que frequentavam a renomada Boate, reduto intelectual e artístico do Rio na altura. João estava lá todas as semanas e foi lá que conheceu Marly Tavares, musa da Bossa, e Carlos Lyra, isso ainda em 59, e depois de lançado o Chega de Saudade.
Seguiram caminhos diferentes, mas com a pretensão brasileira, gravaram em idiomas diferentes, João gravou em quatro, Cauby em nove, inclusive russo. Mas foi agradando aos americanos que eles conseguiram o reconhecimento brasileiro. Dois modos distintos e complementares de interpretar que beberam nas mesmas fontes, Caymmi, Ari Barroso, Ataulfo Alves, Zé da Zilda (Aos Pés da Santa Cruz, que ambos gravaram nos seus estilos), Luiz Peixoto e Tom Jobim. E pasmem, Cauby é o segundo maior intérprete de Tom em quantidade de gravações, perdendo apenas para João. Dois titãs que encarnam hoje o Brasil nas suas várias faces. Gravando os mesmo compositores João virou “chic”, Cauby virou “brega”. João faz espetáculos caríssimos, raros e ainda dá chiliques, Cauby canta toda segunda-feira no bar Brahma, no coração da boemia paulistana: Av Ipiranga com São João, 20 reais a entrada.
Duas obras colossais que dizem tudo da sociedade branca, pálida e inculta do Brasil, quando João bate o violão de longe, a voz de Cauby treme e de um modo distante riem dessa massificação e segregação social dos gostos. Mas não há como negar que o brasileiro é ao mesmo tempo o dândi de Cauby e o cool de João; nesse requebrado, onde o cafona é apenas uma questão de posse, essas figuras são de um lado um Brasil que adora neve, que tem o sonho de não mais falar português e tem saudade dos cabarets parisienses que nunca houve, de outro o sentimento exibicionista, espalhafatoso, com vocação ao estrelato banal, com uma profundidade indefinida cheia de plumas e paetês de quem se acha o tal. O bom brasileiro, o genuíno, é o que se expressa de João e ama de Cauby. Peixoto é o ID e Gilberto é o alter-ego tupiniquim, suplementares e indissociáveis no entendimento do Brasil.
Edu França - editor do Baião de Tudo
3 comentários | quem votou [19] | enviar por e-mail
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500 dias 13 horas 37 minutos atrás
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Parabéns, papá!
Beijo!
Site: http://blogaragem.com
500 dias 10 horas 14 minutos atrás
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mas...
Site: http://novonarede.com.br
500 dias 9 horas 28 minutos atrás
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